Em Rodeio Bonito, a Páscoa ganha vida de mão em mão. Os bonecos que decoram a cidade tomam forma através do trabalho da artesã Simone Poncio da Silva, da costureira Maria Izabela Szadkoski e da auxiliar e visitadora do PIM, que tem uma identificação com o artesanato, Rozane Strapasson Cigognini. As peças criadas por elas transformam a praça e outros espaços do município em cenários que unem cor, volume e identidade própria, frutos de um trabalho artesanal que já se tornou marca cultural da cidade por sua singularidade.
A decoração instalada na praça central e outros pontos da cidade, além do distrito de Saltinho, cria um impacto visual que chama atenção de moradores e visitantes. Neste ano, foram confeccionados cerca de 70 bonecos de coelhos, de tamanhos variando de 1,3 metros a 2,4 metros, cada um com seu próprio figurino, além de aproximadamente 400 cenouras decorativas e uma variedade de pequenos itens complementares.
A coordenação do processo é realizada pelo Departamento de Cultura da Secretaria de Educação, Cultura e Desportos. Assim, o material para a confecção é adquirido pela Prefeitura e as servidoras executam a confecção. Mas o que realmente diferencia Rodeio Bonito é o processo e a riqueza de detalhes: cada personagem leva em média um ou dois dias para ficar pronto e pode passar de 30 a 40 vezes pelas mãos da equipe, em etapas que envolvem montagem, costura e acabamento.
Tradição que ganha novo fôlego
A decoração já se consolidava como uma tradição em Rodeio Bonito, de forma mais rústica, mas ganhou novo fôlego há cerca de quatro anos, quando se pensou em criar uma equipe que pudesse atender às necessidades de confecção dos bonecos. Nessa época, Simone já apresentava seu potencial e desenvolvia peças, potencializando seu tempo entre atendimento de grupos de artesanato e a confecção da decoração. Ela sabia que podia entregar um maior resultado, mas precisava de mais mão de obra em sua equipe.
Pensando em melhorar o processo, a costureira Maria Izabela foi contratada pelo Município e passou a integrar o projeto. Com sua experiência em costura, ela veio para auxiliar a artesã Simone; Maria Izabela conta que o convite chegou em um momento delicado de sua vida, em que passava pela perda recente de sua mãe e marido, e a oportunidade se transformou em uma forma de lidar com a nova rotina. Na costura para a criação de bonecos artesanais, Maria Izabela encontrou trabalho, mas também acolhimento e inspiração para seguir em frente. Rozane chegou de forma gradativa, também dividindo seu tempo, mas tornando-se indispensável para o resultado que o projeto apresenta hoje.
Maria Izabela Szadkoski, Rozane Strapasson Cigognini e Simoni Poncio da Silva, responsáveis pela confecção das peças. Foto: Camila Oliveira.
O diferencial artesanal
Enquanto muitas cidades recorrem a soluções industriais, Rodeio Bonito mantém a aposta no trabalho artesanal em larga escala, algo raro no Estado. As integrantes da equipe lembram que existem peças menores facilmente encontradas no mercado, mas em proporção capaz de transformar um município inteiro, como em Rodeio Bonito, não conhecem nada semelhante.
O cuidado com os detalhes, como roupas confeccionadas em medidas reais e acabamentos delicados, garante identidade própria e aproxima a comunidade. A criatividade também marca o projeto: já surgiram figuras como o “coelho gaúcho”, com indumentária típica, além de cenários lúdicos com balanços e até uma roda-gigante em miniatura.
Foto: Camila Oliveira.
Na confecção, não se tratam de funções fixas. Por exemplo, Simone cria modelos e combina tecidos, mas também participa da montagem. Maria Izabela tira medidas como se fosse costura para pessoas reais, costura e ajusta roupas. Enquanto isso, Rozane atua na montagem, mas também está envolvida nos detalhes e acabamento. Cada peça passa de mão em mão, num processo de troca, improviso e perfeccionismo. Se algo não fica bom, a equipe desmancha e refaz até alcançar o resultado desejado. É uma coreografia artesanal que exige paciência e comprometimento.
Foto: Camila Oliveira.
O impacto dos ornamentos vai além da estética. As crianças brincam com os coelhos, posam para fotos e criam memórias afetivas. Para os adultos, o trabalho é motivo de orgulho e reconhecimento. Muitos se surpreendem ao descobrir que tudo é feito ali, pelas mãos das três artesãs, e não comprado pronto.
Foto: Camila Oliveira.
O ciclo de produção também não para: terminada a Páscoa, já começa a preparação para o Natal, emendando ideias e aperfeiçoando detalhes. É uma engrenagem cultural que nunca se interrompe, sustentada pelo entusiasmo de quem acredita no valor do feito à mão.
Ver a cidade decorada é, para elas, a maior recompensa. O contato direto com a comunidade dá sentido ao esforço coletivo e ajuda a despertar, de maneira única, o espírito da Páscoa. E elas veem que, seu trabalho em Rodeio Bonito, é mais que ofício: é paixão. “Cada vez encanta mais”, resumem, traduzindo em poucas palavras o sentimento que move o grupo e que já se tornou parte da identidade da cidade.