Duas semanas após o anúncio da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, os efeitos do episódio na comunidade venezuelana em Frederico Westphalen seguem marcados pelo silêncio e pela cautela. Entre os imigrantes que vivem no município, a apreensão em relação a familiares que permaneceram no país de origem impõe cuidado na forma como o assunto é tratado, quando é tratado.
O episódio acontece dentro de um contexto de crise prolongada na Venezuela, caracterizado por profunda instabilidade política e econômica, colapso de serviços públicos, escassez de bens essenciais e um êxodo em massa de milhões de cidadãos em busca de melhores condições de vida e segurança
A captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, foi anunciada no dia 3 pelos Estados Unidos, após operação realizada em território venezuelano. Delcy Rodríguez, então vice-presidente de Maduro, assumiu a presidência interina da Venezuela no dia 5, mas ainda não há definição clara sobre um cronograma institucional estável ou eleições futuras, o que mantém incertezas sobre os rumos institucionais do país.
Em comum, o silêncio
Em Frederico Westphalen, as percepções dos venezuelanos sobre a operação não são homogêneas. Conforme relata a psicóloga Ariella Caovilla, da Secretaria de Assistência Social, há diferenças de opinião sobre o cenário político. “A gente percebe que eles estão bem divididos. Alguns concordam, outros discordam”, afirma.
Para parte da população residente, a captura de Maduro foi recebida como uma oportunidade de mudança no cenário político e econômico do país. Outros, no entanto, manifestam críticas à operação e preocupação com o respeito à soberania nacional. Embora muitas vezes contrários em opiniões, eles compartilham um ponto em comum: o silêncio diante do tema.
Entre aqueles que aceitaram falar, o receio e a dúvida aparecem de forma recorrente, se traduzindo em comentários vagos ou na recusa de se manifestar sobre a política venezuelana. “Ficamos apreensivos de expor qualquer coisa e acabar colocando a família [no país] em risco”, relatou uma fonte que preferiu não se identificar.
Entre a expectativa e a incerteza
Alexis Jose Aguache Perez, de 20 anos, descreve a sensação ambígua que permeia a comunidade. “Estamos acreditando que finalmente as coisas podem melhorar, mas há, ao mesmo tempo, medo do que está por vir”, afirma. O jovem acompanha as notícias de forma fragmentada, principalmente por meio de relatos de familiares e conhecidos. “Seguimos informações que são passadas de pessoa para pessoa, pois a imprensa é rasa”, acrescenta.
A cobertura da grande mídia tende a destacar eventos de repercussão internacional, como a captura de Maduro ou declarações de governos estrangeiros, enquanto aspectos do cotidiano e os efeitos diretos sobre a população recebem menos espaço. Por isso, informações compartilhadas por pessoas próximas ajudam a compreender melhor a realidade vivida na Venezuela.
Morando em Frederico Westphalen com a mãe e a irmã, Alexis mantém contato frequente com a família que ainda vive, em sua maioria, na Venezuela. Os testemunhos recebidos expressam angústia e incerteza, e seus contatos próximos contam sobre impactos imediatos na rotina da população, como, por exemplo, estabelecimentos que se mantêm fechados ou em greve por precaução contra saques e furtos, diante da instabilidade política e social. O WhatsApp funciona como principal canal de comunicação, permitindo apoio mútuo e circulação de informações.
Cotidiano
Paralelamente às indefinições políticas, Frederico Westphalen segue recebendo novos imigrantes. A Secretaria de Assistência Social aponta que a chegada de venezuelanos continua de forma recorrente, com famílias recém-chegadas sendo acolhidas semanalmente. O movimento indica que a migração continua como uma alternativa para quem busca segurança e condições de vida mais estáveis.
Segundo Ariella, muitos imigrantes já estão inseridos na rotina local, com emprego e adaptação à sociedade frederiquense. Ainda assim, o vínculo com o país de origem permanece forte, especialmente entre aqueles que têm familiares na Venezuela.
Entre a atenção às notícias, o contato com familiares e o esforço diário de integração, a comunidade venezuelana em Frederico Westphalen vive um período de espera. O futuro permanece indefinido, e a cautela e o silêncio diante de temas políticos refletem a incerteza, o desejo de preservar laços e a garantia de segurança em um cenário em transformação.