“... ET IN PULVEREM REVERTERIS”
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terça, 24 de fevereiro de 2026

A Religião é extraordinária. E a liturgia, através dos textos e símbolos, é riquíssima. Começa com o Nascimento de Jesus, em Belém, numa pobre gruta de pastores e animais, lembrando a humildade de que o ser humano deve estar revestido. Um Rei vem à luz num estábulo. A Semana Santa recorda a paixão, sofrimento, a morte de cruz do Salvador, em que se respira tristezas e agonias. A esfuziante Páscoa, quando Cristo deixa a sepultura, vencendo a terrível morte que amedronta qualquer pessoa, faz o coração humano transbordar de alegria e esperança.

Nesta trajetória religiosa quero me deter num capítulo: a 4ª Feira de Cinzas. Os fiéis se ajoelham diante do Ministro que deposita algumas gramas de cinza nas suas cabeças. Estas cinzas se originam de galhos de palmeira e oliveira queimados e que desfilaram no Domingo de Ramos. A cerimônia é de um simbolismo eloquente. Já nos Tempos Antigos, o povo reconhecia suas culpas vestindo-se de sacos e cobrindo-se de cinzas. Na Idade Média, o jejum da Quaresma, durante 40 dias, era rigoroso, devendo o cristão abster-se de carne, peixe, ovos e leite, tendo apenas uma refeição completa ao dia. A liturgia exterioriza (ou deveria, ao menos exteriorizar) o arrependimento pelos pecados cometidos. E obviamente o desejo de não tornar a repeti-los.

Nesta cerimônia, o Sacerdote pronuncia: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Data vênia, preferiria a fórmula antiga, e em latim: “Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris” (Lembra-te pessoa humana de que és pó e ao pó hás de tornar). Quando minha esposa faleceu, meus filhos e eu, enviamos o cadáver a Passo Fundo para ser incinerado. Voltaram as cinzas, dentro de uma vasilha, que depositamos numa gaveta mortuária da cripta. Toda a beleza feminina, seus enfeites, suas vaidades depois da passagem por esta terra, se reduzem a algumas gramas de pó, de cinzas.

Há dias, num churrasco, o vizinho ao lado me comentava: “Vamos aproveitar, porque desta vida nada se leva”! Errado. Desta vida, tudo se leva, todas as ações, inclusive os pensamentos. Aqui, Deus é Pai, é todo misericórdia, por piores filhos que sejamos. Mas, no Outro Lado, este mesmo Deus será Juiz. E quando a gente se aproximar diante daquele terrível tribunal, o nosso Anjo da Guarda abrirá o livro da nossa vida, página por página, cada 365 dias do ano. Tudo lá está registrado. E nós, de cabeça baixa, aguardando a sentença fatal que valerá para toda a eternidade. Ou ouviremos: “Afasta-te de mim, maldito, para o fogo do interno – ou – Vem, bendito para a casa do Pai, para o lugar que te está preparado desde todo o sempre”.

Simpático Leitor: você pode ou não acreditar neste artigo. Poderá até soltar um sorriso irônico. Só que a verdade é irrefutável. E ninguém fugirá do seu destino, pois este terrível destino, somos NÓS que o construímos. Deus se curva diante da nossa liberdade. Só nos restará amaldiçoar ou bendizer a nossa decisão!

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